Da queda ao recomeço: a construção de uma nova história

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Encerrar um ciclo é algo que faz parte da rotina de qualquer pessoa e também é necessário para que novas experiências e caminhos possam ser experimentados. Na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo, diversas histórias são reescritas todos os dias, como a de Christian dos Santos, de 19 anos.

O jovem viu seu destino mudar muitas vezes e encara com muito otimismo tudo que precisou passar para ser quem é hoje. “Tenho muito orgulho de ter passado por aqui e de ter me tornado o que me tornei”, afirmou. E com razão. O adolescente cumpriu medida de internação no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) POA I, de abril até novembro de 2017.

Os caminhos do rapaz e da Fase se cruzaram após uma série de acontecimentos, que tiveram início bem antes quando Christian, morador da zona Sul de Porto Alegre, viu o casamento de 24 anos de seus pais chegar ao fim, passando a residir sozinho, a partir de então, na casa que era da mãe.

Sempre trabalhou muito. Desde os 15 anos passou pelo mercado de um tio, foi office boy e chegou a balconista de farmácia. Entretanto, o proprietário do estabelecimento precisou dispensá-lo para cortar gastos. “Eu era o mais novo de lá. O dono chegou em mim e disse: ‘tu é novo, vai ter outras oportunidades. É mais fácil tu conseguir alguma coisa do que os outros que são mais velhos”, afirmou.

Christian tinha uma moto e passou a fazer ‘bicos’ com entregas. O dinheiro não era muito, mas era algo honesto e digno e com o qual ele conseguia se sustentar. Em 2016, ele conheceu sua atual companheira e a trouxe para morar em sua casa. A jovem tinha um filho de outro relacionamento, que na época tinha quatro meses. Tudo ia bem para a família, até que, em um acidente de trânsito, a moto quebrou. E, então, vieram os problemas.

O momento da queda

A oportunidade a que seu ex-chefe se referiu acabou surgindo, mas, infelizmente, no mundo do crime. “Houve o acidente, fiquei sem emprego, sem contato com os pais. Comecei a roubar carro, não deu uns quatro meses, fui preso”, relembrou. No primeiro dia, pouco antes de vir para a Fase, o jovem foi encaminhado para Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca). Lá refletiu sobre o que o levou a cometer o ato. “Por que eu tinha feito aquilo? Foi a primeira coisa que me perguntei. Eu sempre trabalhei, sempre fui pelo certo.”, lembrou.

Segundo o jovem, o pai ficou bem bravo e não quis conversar com ele durante o período de permanência na Fase. A mãe foi quem deu suporte. “Ela foi a primeira visita que eu tive aqui. Achei que ela não viria, pois tinha ficado muito triste. Mas na nossa primeira conversa dentro da Fase, disse: já que vim para cá, vou aproveitar esse tempo. E comecei os cursos”, afirmou.

A hora da virada

Já no Centro de Convivência e Profissionalização (Ceconp), Christian realizou os cursos de Gastronomia e de Artesão Metalúrgico. Com o primeiro, começou a mudar sua história: com a bolsa de meio salário-mínimo recebida através do Centro de Integração Empresa – Escola (CIEE), o adolescente conseguiu repassar os valores para a mãe, que comprou um terreno também na zona Sul de Porto Alegre, onde começou a construir duas casas no terreno: uma para si e outra para o filho.

O jovem sempre se destacou nas turmas em que participava. O atual ministrante do curso de Metalurgia, Ricardo Cardoso, notou a diferença desde o início. “Ele tem uma característica especial que, desde o início, me chamou a atenção. O Christian tem muita boa vontade e empenho de querer fazer a mudança”, afirmou o professor que ministra as aulas na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo desde a época da extinta Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), em 1999.

Com a motivação e a dedicação certas, Christian viu seus caminhos seguirem para outros rumos ao receber uma proposta de emprego do tutor para quando saísse da Fase. E quando saiu, não teve dúvidas. “Fui atrás e comecei a trabalhar na serralheria dele. Atualmente, divido meu tempo entre o emprego lá e com um parceiro do Ricardo, o Juliano”, disse. Com o salário de pouco mais de um salário-mínimo, o rapaz consegue sustentar sua família, que está crescendo: a companheira está esperando um menino, que está previsto para nascer em novembro.

A rotina do adolescente se alterna entre o trabalho e as aulas que hoje ministra ao lado de Ricardo, no Ceconp, no mesmo curso que acabou por mudar sua vida. O tutor achou que seria uma boa oportunidade para o jovem, de retribuir aquilo que recebeu dentro do Centro. “Quando tive a oportunidade, aceitei na mesma hora. Vir pra cá e saber que posso ajudar outros a serem beneficiados com a chance que eu tive, não tem preço”, destacou. “Muitas vezes, o que falta é só alguém acreditar na gente. O que tem na nossa volta é só tráfico, droga, armas… É o que tá mais perto”, frisou.

A pedagoga do Ceconp, Lilian Locatelli, exaltou a mudança do jovem. “Só fato dele querer ser voluntário, dando o retorno do que um dia ele teve, demonstra o valor que essa oficina teve para ele e o quanto, de uma certa forma, cumprir a medida contribuiu para isso”, afirmou.

Hoje, Christian deixa bem claro para todos por onde passou e garante que se não fosse pela Fase, talvez sua história fosse outra. “O fato de eu ter vindo daqui motiva também os alunos a acreditarem mais. Me sinto realizado pelo fato de eu conseguir fazer minhas coisas direito, mostrar meu rosto sem dever nada para ninguém”, declarou.

As aulas ministradas por Ricardo e Christian ocorrem todas as segundas-feiras, no período da tarde, no Centro de Convivência e Profissionalização (Ceconp). As turmas são compostas por até cinco alunos e lá, os socioeducandos elaboram peças e aprendem sobre o básico sobre o ofício da metalurgia no curso que tem duração de cerca de um mês.

Texto: Daiana Camillo
Foto: Marcelo Vaz

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